O voto é um ato de fé


O VOTO É UM ATO DE FÉ?

O que seria a fé? Fazendo uma consulta aos significados da palavra, encontramos o seguinte:
"Adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro."

Então, podemos dizer que a fé é o ato de acreditar naquilo que se considera verdadeiro (pela visão particular de cada um, é claro). Quando trabalhamos com a ideia de verdade relativa, entendemos que a verdade em que eu acredito (minha fé) não é necessariamente a mesma verdade em que você acredita (sua fé). Eu posso acreditar que a religião "A" me traz mais felicidade do que a religião "B". Cada um de nós vive conforme a verdade ou a fé que assume para sua vida.

Levando em consideração essa definição de verdade ou fé, o que nos falta para entender o outro? Uma coisa é o tipo de pessoa que Bolsonaro e Lula são; outra são as pessoas que são enganadas por eles. Na visão de parte da população, ambos se tornaram heróis de uma causa, pessoas capazes de salvar o país um do outro. Isso é, simplesmente, o ato de acreditar.

Vamos aos fatos: vivemos em um país altamente dividido, polarizado e cheio de ódio. Essa fé ou verdade pode se tornar algo perigoso para a convivência com quem pensa diferente. Um lado usa o nome de Deus e, por vezes, a violência para justificar seus pontos de vista; o outro utiliza a defesa das minorias como uma de suas principais bandeiras, adaptando seu discurso conforme o contexto político. Em ambos os casos, há quem enxergue a estratégia de "dividir para conquistar".

Vou usar uma fala do presidente para mostrar que ambas as ideologias possuem aspectos negativos. Quando ele afirma que a esquerda tem intimidade com o assassinato, ele faz referência a regimes que cometeram graves violações de direitos humanos. Basta estudar um pouco da história de países como Cuba, China e Venezuela para encontrar episódios de violência política. Mas e a direita? O conservadorismo cristão capitalista é santo? Também não. Muitas mortes na África, durante o período do colonialismo e do neocolonialismo, foram provocadas por nações de tradição cristã, que justificavam suas ações dizendo agir em nome de Deus. Basta observar, por exemplo, o que a Bélgica fez no Burundi e em outras regiões da África Central.

Mas, Paulo, as duas ideologias podem coexistir no mesmo mundo? Sim.

 Pegando o gancho da Segunda Guerra Mundial, esse conflito foi vencido graças aos esforços do conservador Winston Churchill e do ditador soviético Josef Stalin. Houve uma coexistência entre ambos por um objetivo maior: derrotar a Alemanha nazista. Se, em uma guerra, eles aceitaram dividir o suor e o sangue, por que hoje isso é tão difícil?

Não estou falando em aceitar tudo o que o outro deseja. A divergência deve existir; ela demonstra que a democracia está viva. No entanto, o respeito ao diferente deve estar sempre acima dos interesses pessoais. Minha obrigação como cidadão é respeitar quem pensa diferente.
Não aceitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo não faz, automaticamente, alguém ser homofóbico, nazista ou fascista.

Defender espaço, direitos e produtos voltados para minorias também não faz alguém ser um demônio.
Sou cristão. Não concordo com inúmeras práticas do catolicismo nem da Umbanda (usando ambas apenas como exemplo).

 Isso faz de mim apenas alguém que acredita em algo diferente, mas que pode conviver com ambos sem o menor problema, desde que haja respeito mútuo. Acredito que a minha atitude pode levar o outro a respeitar também a minha posição.

Você quer votar no Bolsonaro (filho) porque acredita nele? Então faça isso. Da mesma forma, sua mãe, seu pai, seu irmão ou seu amigo podem votar em Lula porque acreditam nele. Isso não deveria ser motivo de separação. Pelo contrário, deveria servir para compreendermos melhor o pensamento do outro, suas necessidades e seus problemas. A fé que uma pessoa deposita em um candidato pode esconder dificuldades que nós mesmos poderíamos ajudar a resolver, em vez de brigarmos e desejarmos o mal uns aos outros.

Devemos entender o que eles pregam, o que têm a nos dizer e analisar se as ideias que defendem se aproximam de correntes políticas que, no passado, estiveram associadas a conflitos e regimes autoritários.
Vou dar um exemplo: Renan Santos é, até o momento, um dos poucos nomes que apresenta propostas claras para o Brasil. Em seus vídeos e debates, costuma responder às perguntas com planos e projetos. Porém, na minha visão, ele flerta com setores da extrema direita e com ideologias que considero perigosas. Ainda assim, até o momento, tem se apresentado como uma alternativa de terceira via para quem deseja fugir da polarização entre lulismo e bolsonarismo.

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