2-ABSOLUTISMO
Resultante
do processo de centralização política das monarquias nacionais europeias, o
absolutismo era um sistema político da Idade Moderna. Suas principais
características são: ausência de divisão de poderes, poder concentrado no
Estado e política econômica mercantilista.
No final da
Idade Média (séculos XIV e XV), ocorreu uma forte centralização política nas
mãos dos reis. A burguesia comercial ajudou muito neste processo, pois
interessa a ela um governo forte e capaz de organizar a sociedade. Portanto, a
burguesia forneceu apoio político e financeiro aos reis, que em troca, criaram
um sistema administrativo eficiente, unificando moedas e impostos e melhorando
a segurança dentro de seus reinos.
Nesta época,
o rei concentrava praticamente todos os poderes. Criava leis sem autorização ou
aprovação política da sociedade. Criava impostos, taxas e obrigações de acordo
com seus interesses econômicos. Agia em assuntos religiosos, chegando, até
mesmo, a controlar o clero em algumas regiões.
Todos os
luxos e gastos da corte eram mantidos pelos impostos e taxas pagos,
principalmente, pela população mais pobre. Esta tinha pouco poder político para
exigir ou negociar. Os reis usavam a força e a violência de seus exércitos para
reprimir, prender ou até mesmo matar qualquer pessoa que fosse contrária aos
interesses ou leis definidas pelos monarcas.
Numa
monarquia absolutista, o rei tinha com seus súditos uma relação marcada pelo
princípio da fidelidade: todos, sem exceção, deviam obediência e respeito ao monarca
e seus representantes. Estes possuíam a prerrogativa de julgar e legislar ao
invocar a mera vontade do soberano. Isso quer dizer, é claro, que questionar
publicamente o desejo do monarca ou de seus agentes poderia ser considerado por
si só um crime passível de punição, como pôde ser visto durante o reinado
daquele que é considerado o expoente máximo do absolutismo: o monarca francês
Luís XIV (1638-1715), cognominado como o Rei Sol. Durante seu reinado, ele
concederia prêmios em dinheiro e incentivos fiscais à burguesia de modo a
favorecer as manufaturas, e aplacaria a influência da nobreza ao distribuir
favores, pensões e empregos na sede da corte dos Bourbon em Versalhes, onde
viveriam milhares de aristocratas subordinados a ele. Deste modo, Luís XIV
obteve sucesso em controlar ambos os grupos sociais.
Nesta época,
surgiriam teorias políticas que justificavam tamanho poder. A primeira
apareceria ainda no século XVI, na obra A República, do francês Jean Bodin
(1530-96). Esses escritos defendiam que o fortalecimento do Estado, gerando uma
soberania inalienável e indivisível por parte do soberano, era a única maneira
realmente eficaz para se combater a instabilidade política. Essa linha de
pensamento seria complementada por O Leviatã, do inglês Thomas Hobbes
(1588-1679), que afirmaria que o rei não deveria justificar seus atos perante
ninguém. Mas seriam as ideias do bispo francês Jacques Bénigne Bossuet
(1627-1704) que se provariam mais influentes para o regime absolutista. Em sua
obra A política inspirada na Sagrada Escritura, ele apresenta a origem da
realeza como divina. O monarca seria o representante de Deus na Terra, e, como
tal, suas vontades seriam infalíveis, não cabendo aos súditos questioná-las.
Essas ideias formariam a base da doutrina política oficial do absolutismo
francês, sendo conhecidas em seu conjunto como a teoria do direito divino dos
reis.
Uma condição
essencial para a formação deste tipo de monarquia foi a grande quantidade de
arrecadação alcançada após a consolidação do projeto de colonização nas
Américas. Isso enriqueceria substancialmente as monarquias nacionais,
possibilitando a manutenção dos exércitos e marinhas. Com o tempo, surgiria a
noção do metalismo, uma das questões mais importantes da nova política
econômica do período que se convencionou chamar de mercantilismo. Para o
metalismo, a riqueza de um reino seria medida pela quantidade de metais
preciosos dentro de suas fronteiras. Para garantir isso, era fundamental que
fossem vendidas mais mercadorias do que compradas, a fim de que fosse alcançada
uma balança comercial positiva. Para conseguir tal objetivo, o Estado
intervinha na economia e impunha o protecionismo, de modo que as barreiras
alfandegárias ficassem praticamente intransponíveis para os produtos
estrangeiros.
Principais
teóricos do Absolutismo
Muitos
filósofos desta época desenvolveram teorias e chegaram até mesmo a escrever
livros defendendo o poder dos monarcas europeus. Abaixo alguns exemplos:
Jacques Bossuet: para este filósofo francês o rei
era o representante de Deus na Terra. Portanto, todos deveriam obedecê-lo sem
contestar suas atitudes.
Embora fosse um religioso, Bossuet era um
formulador de ideias favoráveis ao poder do rei, chegando a estabelecer em
documento depois da assembleia do clero realizada entre os anos 1681 e 1682, em
que o Papa só deveria ter poder em questões religiosas, devendo isentar-se do
poder secular.
Em seu livro
“Política Tirada das Santas Escrituras”, de 1708, Bossuet defendia o direito
divino, legitimador do governo da realeza. Nessa situação, qualquer revolta
seria considerada um crime, embora deixasse claro que o rei deveria sempre
evitar o abuso de poder. Defendia o jansenismo - doutrina que pregava a
salvação como privilégio de pessoas escolhidas por Deus.
Nicolau Maquiavel: Escreveu um livro, " O
Príncipe", onde defendia o poder
dos reis. De acordo com as ideias deste livro, o governante poderia fazer
qualquer coisa em seu território para conseguir a ordem. De acordo com o pensador,
o rei poderia usar até mesmo a violência para atingir seus objetivos. É deste
teórico a famosa frase: " Os fins justificam os meios."
Niccolò di
Bernardo dei Machiavelli, mais conhecido no Brasil como Nicolau Maquiavel, foi
um filósofo que viveu e produziu entre os séculos XV e XVI, na região de
Florença. Dedicou-se a explicação e compreensão do estado, politica e homens de
estado como estes são na realidade, em oposição àqueles autores que formularam
teorias acerca de como deveria ser o estado ou o governante ideal. Para além de
descrever o estado de sua época, Maquiavel também apresentou estratégias e
métodos sobre como os homens de estado deveriam comportar-se para tirar maior
proveito da realidade, mantendo e expandindo o poder.
Maquiavel é
visto como um proponente do que viria a ser o cientista empirista moderno,
defendendo que expandir a partir da experiência e fatos históricos é o melhor
método de se desenvolver uma filosofia consistente, especialmente em política,
e que a teorização a partir da imaginação é inútil. Com esta aproximação, Maquiavel
foi capaz de afastar a politica da teologia e da filosofia moral,
desenvolvendo-a como uma disciplina em si mesma. Assim, contribuiu para a
compreensão de como os governantes de fato agem e mesmo para a antecipação de
seu comportamento. Defendeu o estudo da fundação de uma nação e a compreensão
de seus elementos originais como essencial para a antecipação do futuro.
Grande
dificuldade foi encontrada por autores posteriores ao tentar estabelecer a
moral de Maquiavel. Devido a sua posição realista acerca da natureza e forma de
manutenção do estado e suas instituições, especialmente sua descrição de como a
desonestidade e a morte de inocentes pode ser útil aos políticos, em sua obra
mais famosa, O Príncipe. Maquiavel foi criticado e repudiado veementemente por
diversos estudiosos políticos e, especialmente, teóricos da moral, o que
contribui para a associação de seu nome a uma característica inescrupulosa, com
a criação do adjetivo "maquiavélico".
Por outro
lado, autores como Baruch Spinoza, Jean-Jacques Rousseau e Denis Diderot
defenderam que Maquiavel era na verdade um republicano e que suas ideias foram
extremamente úteis para a compreensão do estado, inspirando o Iluminismo e
consequentemente o desenvolvimento da filosofia politica democrática moderna. O
autor italiano Benedetto Croce defendeu Maquiavel afirmando que sua posição era
a aceitação de que, na realidade, as regras morais afetam muito pouco a ação e
decisões dos políticos. A interpretação aceita atualmente é a de que Maquiavel
se coloca como um cientista politico, procurando distinguir os fatos da vida
politica dos valores do julgamento moral.
Encontramos
em Maquiavel uma critica ao aristotelianismo teológico, aceito pela igreja, e a
relação da igreja com o estado, que levaria muitas decisões práticas a serem
tomadas com base em ideais imaginários. O aristotelianismo teológico foi a mais
sofisticada forma de justificação do cristianismo e, na visão de Maquiavel,
teve como efeito justificar a preguiça e inação das pessoas frente aos desafios
da vida e da sociedade, ao esperar pela providência divina para solucionar tais
desafios. Este posicionamento, de recusa da sorte e destino baseados em algo
externo a vida humana, classificou Maquiavel como um humanista. Enquanto
encontramos em filósofos como Platão a descrição da politica, tornando-o mais
próximo de Maquiavel do que Aristóteles, tais filósofos sempre tiveram uma
inclinação para posicionar a filosofia acima da politica, enquanto Maquiavel
recusava qualquer ideia teleológica, aquelas que postulam causas finais ideais.
Embora
seguidores de Maquiavel tenham preferido métodos mais pacíficos e baseados na
economia para promover o desenvolvimento, é aceito que a posição de aceitação
de riscos, ousadia, ambição e inovação que Maquiavel sugere aos lideres
políticos ajudou a fundar novos modos de se fazer politica e negócios.
Thomas
Hobbes: Este pensador inglês, autor do livro " O Leviatã ",
defendia a ideia de que o rei salvou a civilização da barbárie e, portanto,
através de um contrato social, a população deveria ceder ao Estado todos os
poderes.
Embora tenha
argumentado em favor da monarquia absoluta, Hobbes ajudou a estabelecer vários
conceitos importantes para o pensamento liberal europeu. Parte de sua adesão a
uma monarquia absoluta se deve a defesa de um governo Central forte que deveria
ser capaz de evitar guerras civis. Historicamente, se entende que esta defesa é
devida ao fato se sua obra Leviatã ter sido escrita durante a Guerra Civil
Inglesa. Nesta obra Thomas Hobbes estabelece sua posição acerca da fundação do
estado, da legitimidade do governo e da formação de uma ciência da moral
objetiva.
Hobbes foi
um mecanicista, defendeu que a memória, as paixões e a imaginação seria funções
derivadas do arranjo mecânico humano, da mesma forma que o movimento de
qualquer mecanismo segue-se do arranjo de suas partes. Assim, segundo Hobbes,
as operações materiais do sistema nervoso humano seriam responsáveis por
explicar a percepção e busca do desejo, o que explicaria a vontade humana e a
mente como um todo. De acordo com Hobbes, humanos são seres de matéria e
movimento, obedecendo às mesmas leis da natureza que os objetos físicos.
Partindo
desta visão mecanicista, Hobbes procurou entender como seria a vida humana sem
a política, situação a qual chamou "estado de natureza". Em sua
interpretação esta situação seria uma guerra de todos contra todos (Bellum
omnium contra omnes), pois na ausência de uma comunidade política, todos os
indivíduos teriam licença para possuir toda e qualquer coisa, sem limites
estabelecidos, mesmo quanto aos frutos de seu próprio trabalho, e não havendo
restrições, exerceriam suas paixões e desejos. Esta situação inclui tanto a
guerra em particular quanto competição e dificuldades extremas em geral. Sua
argumentação acerca da natureza humana como centrada no interesse próprio permanece
atual em teoria política.
Hobbes
argumenta que, nesta situação, nenhuma das grandes realizações da humanidade
seria possível. A indústria, as grandes navegações, descobertas, fabricação de
produtos sofisticados, todos dependem em maior ou menor medida de alguma
segurança para as transações e para a manutenção do que se produz, o que não
seria possível neste estado de natureza. Acuados pelo risco constante de uma
morte violenta, ou da tomada de sua produção, os homens não produziriam artes,
literatura ou mesmo a sociedade organizada.
Para evitar
esta situação de constante incerteza, os indivíduos concordam com um contrato
social, estabelecendo assim a sociedade civil. Entendendo "sociedade
civil" como uma reunião de indivíduos sob uma autoridade soberana, para a
qual todos concordam em ceder alguns direitos, ou parte de seu direito natural
a toda as coisas, em troca de proteção, especialmente na forma de garantia dos
acordos entre indivíduos.
Neste
arranjo social, os indivíduos estariam impedidos de resistir ao poder da
autoridade soberana, pois a soberania de tal autoridade seria derivada da
submissão do poder soberano dos próprios indivíduos, que concordaram em ceder
este poder em troca de proteção. Para Hobbes, a alegação de que somos coagidos
por tal autoridade equivale a dizer que somos coagidos por nós mesmos, o que é
uma impossibilidade. Justamente por não reconhecer a possibilidade de abuso de
poder por parte da autoridade, este modelo não supõe separação de poderes. No
arranjo proposto por Hobbes, o poder da autoridade soberana se estende até
sobre os poderes eclesiásticos, incluindo exército, judiciário e civil.
Para além da
política. Hobbes dedicou-se ainda a ética, filosofia em geral, física,
contribuindo especialmente para a teoria moderna dos gases, teologia e diversas
outras áreas.
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